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Desaparecidos

O pior de todos os crimes é aquele que não pode ser punido.

Ecos do Porão

Emiliano José

Fico pensando no que foi o nazismo. No Tribunal de Nuremberg. Na justiça que se procurou fazer diante daquele genocídio. Julgou-se os assassinos, e ponto. Não os que a eles resistiram. E só o faço como alusão à situação brasileira.

Quem desembarcasse no Brasil nos últimos dias e não soubesse nada de nossa história, certamente começaria a assimilar a idéia de que não houve ditadura. Que ela não matou, não sequestrou, não torturou barbaramente homens, mulheres, crianças, religiosos, religiosas. Que não empalou pessoas, que não fez desaparecer seres humanos, que não cortou cabeças, que não queimou corpos. Que não cultivou o pau de arara, o choque elétrico, o afogamento, a cadeira do dragão, que não patrocinou monstros como Carlos Alberto Brilhante Ustra ou Sérgio Paranhos Fleury, este morto, o primeiro ainda exibindo sua arrogância, cinismo e ainda certeza da impunidade.

Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal pelo PT-BA.

Entrega

Futebol é mais que profissionalismo, é amor, identidade, rivalidade, e muitas outras coisas (nem sempre boas, é verdade). Porém, cada vez que um jogador afirma, com orgulho, que é “profissional”, sem querer, mata um pouco a razão da própria existência.

Se entregar um jogo é não ser profissional, viva o amadorismo! O que sustenta o inexplicável sentimento universal de milhões de pessoas não é o “profissionalismo”. Não é o profissionalismo que enche estádios, derrama lágrimas, põe em risco casamentos e empregos, cria mitos e destrói sonhos. Uma Batalha dos Aflitos não é feita de profissionalismos!

O torcedor sente isso. Por uma racionalidade que se impõe categoricamente, é obrigado a aceitar os “profissionais” nos seus times. Mas se fosse possível, se fosse pela vontade dessas imensas e insanas torcidas, só vestiria o manto sagrado quem tivesse vínculos emocionais verdadeiros.

Não compreende o que é o futebol quem acredita bastar – o jogador – ser profissional para ser ético, como se o profissionalismo encerrasse em si toda uma norma de conduta correta.

Não, amigos! Não basta ser profissional para ser ético. A ética futebolística não se resume a vencer. Ser ético é também respeitar uma rivalidade centenária movida a uma incompreensível paixão. E é, sobretudo, entender que perder um jogo para prejudicar um adversário, e, portanto, beneficiar-se, é lícito e limpo. Pelo menos para aqueles que vivem o futebol para além das quatro linhas.

Entregar um jogo. Jogar para perder. Afinal, quem decretou que isso não faz parte do jogo? O que pode levar milhões a ansiarem a própria derrota eu não sei explicar exatamente. Mas estou certo de que esse vício alucinante chamado futebol só poderá continuar existindo enquanto os “profissionais”, da bola e dos microfones, não gritarem mais alto que milhões de amadores que se comprimem nas gerais, loucos pelo clube do coração, por seu escudo, trapos e barras.

Manchete de O Globo: “Lula estimula mais consumo e produtos começam a faltar. Com economia já aquecida, novas isenções trazem temor de inflação e alta de juros“.

Deixa ver se entendi: o Brasil tem uma alta carga tributária (pelo menos, até ontem eles falavam isso), mas não é bom reduzir impostos, porque isso vai fazer as pessoas consumirem mais e os produtos vão faltar? É isso? Ah, tá!

Será que os editores do Globo combinaram isso com o empresariado? Acho que não, hein! Da reunião de pauta, dessa vez, aposto que participaram apenas os assessores do DEM e do PSDB.

Vou pedir ajuda para  Nassif e  P.H. Amorim.

Divertido acompanhar a “livre opinião” dos comentaristas das Organizações Globo em favor da democracia. A partir das matérias veiculadas hoje sobre o posicionamento do Brasil quanto à crise em Honduras, os “livres e independentes pensadores” acreditam que o governo brasileiro, mais uma vez, comete erros na sua política externa, ao contrário de Obama.

Depois da Veja, agora a Globo também acha que o Zelaya é o verdadeiro golpista. Merval Pereira, no Jornal das Dez da Globonews, falou com todas as letras. A Míriam Leitão, por seu lado, explica que o importante são as eleições, não Zelaya.

Parece que a referida esqueceu que eleições costumam eleger pessoas e que, por acaso, Zelaya foi “eleito numa eleição” e deposto por militares que, também por acaso, mantém o “eleito numa eleição” cercado na embaixada brasileira.

Mas, o importante é a eleição. Que o eleito seja depois impedido de governar pelos militares, é irrelevante. Não é, Míriam?

Quanto você pode consumir? O que você pode comprar? O que cabe no seu bolso? O quanto de comida cabe na sua barriga?

A cultura do consumo e do excesso dá sinais de esgotamento. Infelizmente, não por motivos éticos, solidários ou por ideais revolucionários, mas pelo limite do Planeta, que, simplesmente, não vai suportar por muito mais tempo.

Surplus é um documentário sueco, dirigido pelo italiano Erik Gandini em 2003.  No youtube, está na íntegra.


Quando você descobre que a Folha de S.Paulo, considerada um dos três mais influentes jornais do país, vendeu em média 21.849 exemplares diários em bancas em todo o território nacional entre janeiro e setembro de 2009, é possível constatar a abissal queda de circulação na chamada grande imprensa brasileira. Em outubro de 1996, a venda avulsa de uma edição dominical da Folha chegava a 489 mil exemplares.

Segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC) a Folha é o vigésimo quarto jornal em venda avulsa na lista dos 97 jornais auditados pelo instituto, atrás do Estado de S.Paulo, em 19o lugar e O Globo, em 15o lugar. Somados os três mais influentes jornais brasileiros têm uma venda avulsa de quase 96 mil exemplares diários, o que corresponde a magros 4,45% dos 2.153.891 jornais vendidos diariamente em banca nos primeiros nove meses de 2009.

Esta constatação não é nova, mas ela aponta um dilema crucial: as classes A e B são aquelas onde a penetração informativa da internet é mais intensa. Nesta conjuntura, o futuro de O Globo, Estado e Folha depende umbilicalmente das classes média e alta, o que levou a uma disputa acirrada para saber qual deles interpreta melhor a ideologia destes segmentos sociais.

charrua

Me procurando

No olhar do índio revi meu povo
Nos arremates do alambrador
Na esquila antiga feita a martelo
Na polvadeira de um redomão
Nos olhos tristes de algum poeta
Que canta coisas do coração
Que viu o tempo, matando o tempo
Num rancho tosco,quincha e torrão

Jeito de vento quando amanhece,
De alma branca de cerração.

Xiru Antunes/Marcelo Oliveira

milonga

son largas mis penas viejas

como las noches son largas

y así las veo cruzando

mateando la yerva amarga.

(Aparício S. Rillo/L.C. Borges)

Ela disse tudo.

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